Conta Multidão

Estudo de caso nº 1 · publicado em 12/10/2026 · método v1.0

Avenida Paulista, 11 de outubro de 2026

Aplicamos o método passo a passo ao ato realizado no domingo na Avenida Paulista, em São Paulo, usando apenas fotos com licença aberta. Mostramos o que foi possível medir, o que não foi e por quê.

Estimativa de público presente ao mesmo tempo, num momento de pico registrado pelas fotos aéreas (intervalo de 90%)
210 mil a 380 mil pessoas
valor mais provável: ≈ 290 mil · núcleo apoiado em contagem manual; demais trechos por julgamento visual, com incerteza ampla

Contexto

O ato, chamado pelos organizadores de "Marcha pela Democracia", ocorreu duas semanas antes do segundo turno da eleição presidencial, com o carro de som em frente ao MASP. As estimativas divulgadas divergem: os organizadores anunciaram 1 milhão de participantes, a imprensa noticiou "milhares" e nenhum órgão oficial divulgou contagem. O Monitor do Debate Político (USP) e a More in Common informaram que não puderam estimar o público porque o sobrevoo com drone, necessário ao seu método, não foi autorizado. (Metrópoles, Agência Brasil, Diário do Grande ABC.)

Nota de imparcialidade. Este estudo aplica o mesmo método e os mesmos parâmetros padrão que usaríamos para qualquer ato, de qualquer orientação. A escolha deste evento se deve apenas a ser o mais recente na Paulista quando o projeto começou.

1Fotos e proveniência

Fizemos uma busca no Flickr e no Wikimedia Commons por fotos tiradas em 11/10/2026 com licença que permite redistribuição. A única fonte encontrada foi o álbum oficial da campanha (43 fotos, Ricardo Stuckert, CC BY-SA 4.0). Fotos de agências e jornais não têm licença aberta e por isso não são reproduzidas aqui.

Possível viés de seleção: fotos oficiais de uma campanha tendem a mostrar o melhor ângulo e o momento de maior público. Além disso, elas passaram por tratamento (Lightroom/HDR) e compressão. Usamos 11 delas, sendo 7 aéreas, e a lista completa, com o SHA-256 de cada arquivo, está em fotos.json.
Sentido das fotos. Das 6 fotos aéreas de exemplo, 3 olham para o Paraíso (MASP à esquerda: 55581805947, 55582830431, 55583249180) e 3 olham para a Consolação (MASP à direita: 55583249175, 55583639030, 55583675910). No sentido da Consolação o drone estava baixo (≈18 m), junto ao MASP, então o trecho Augusta–Consolação só aparece no horizonte. As fotos tiradas de cima do carro de som olham todas para o Paraíso (numa delas se lê a placa "R. Pamplona"). Não há, no álbum, fotos que mostrem de perto o trecho entre a Augusta e a Consolação.
Horário das fotos. Os metadados não registram a hora de captura, só a de edição (vários arquivos marcam exatamente 14:03:12; duas fotos da vista 2 marcam 17:05 e 17:24). Não dá para afirmar que as fotos são do mesmo instante.

2Registro: duas vistas, dois mosaicos

As 6 fotos aéreas usadas no exemplo formam dois grupos: um drone olhando para o Paraíso (MASP à esquerda) e outro olhando para a Consolação (MASP à direita). Dentro de cada grupo, o registro encontrou de 314 a 2.342 correspondências consistentes por par, e as fotos foram unidas sem duplicar regiões. Entre os grupos não há sobreposição (os sentidos são opostos), o que o método reconhece.

Mosaico de 3 fotos aéreas olhando para o Paraíso
Mosaico 1: 3 fotos registradas (inliers por par: 2.342 e 314). A multidão segue até o horizonte, em direção ao Paraíso. Fotos: Ricardo Stuckert/Lula Oficial, CC BY-SA 4.0.
Mosaico de 3 fotos aéreas olhando para a Consolação
Mosaico 2: 3 fotos registradas (inliers por par: 815 e 1.371). Carro de som em frente ao MASP. Fotos: Ricardo Stuckert/Lula Oficial, CC BY-SA 4.0.

3Projeção no mapa: a avenida inteira vista de cima

Para ver toda a extensão da Paulista numa só imagem, em escala, projetamos as fotos oblíquas sobre a ortofoto 2020 da Prefeitura de São Paulo (GeoSampa, ≈10–20 cm por pixel, licença CC BY-SA 4.0). Não usamos imagens do Google Maps, cujos termos proíbem derivar dados das imagens. Os satélites do INPE (CBERS-4A, 2 m por pixel) são gratuitos, mas grosseiros demais para marcar faixas e meios-fios. Servem de alternativa para cidades sem ortofoto municipal.

Na ferramenta, a projeção é feita marcando pontos de controle (o mesmo ponto do chão na foto e no mapa). Aqui, porém, a multidão cobre quase todo o chão. Por isso usamos uma técnica clássica de fotogrametria, a calibração por pontos de fuga:

  1. As arestas verticais dos prédios convergem num ponto de fuga vertical (detecção automática de segmentos + RANSAC).
  2. As bordas da multidão (vista 1) e as arestas longas da fachada do MASP (vista 2), paralelas à avenida, convergem no ponto de fuga da avenida.
  3. Os dois pontos de fuga dão a distância focal e a orientação da câmera. A largura do carro de som (3,0 m) dá a escala (altura da câmera), e um ponto conhecido do chão dá a posição: a base do pilar noroeste do MASP na vista 1, e a traseira do caminhão, localizada pela vista 1 somando os 19,7 m de comprimento, na vista 2.
VistaFocalAltura da câmeraPosiçãoInclinação
1 (para o Paraíso)2.894 px≈ 63 m≈ 100 m antes do MASP18° abaixo do horizonte
2 (para a Consolação)1.629 px≈ 18 mjunto à ponta sudeste do MASP13° abaixo do horizonte

Verificações independentes: na vista 1, a borda da multidão junto ao MASP cai a 2,7 m do eixo de referência, onde fica o meio-fio na ortofoto (2 m), e as ruas Plínio Figueiredo e Casa Branca caem nas duas pontas do MASP. A frente e a traseira do caminhão medidas na foto distam 17,6 m, contra 19,7 m da placa. Na vista 2, a linha a 8 m do eixo acompanha a base da fachada do MASP, e a câmera está na altura do topo do MASP, que de fato aparece quase de perfil, junto ao horizonte.

Vista 1 com meios-fios e ruas transversais projetados
Vista 1: meios-fios (amarelo), limites das calçadas (azul) e ruas transversais (magenta) desenhados na perspectiva da foto pelo modelo de câmera. A multidão segue até perto da Rua 13 de Maio, no fim visível da avenida.
Vista 2 com meios-fios e ruas transversais projetados
Vista 2: no sentido da Consolação, a multidão é visível até perto da Augusta, já no horizonte. Relatos não verificados indicam que ela se estendia até a Consolação.

Com os dois modelos, as 6 fotos (as demais herdam o modelo pela homografia do registro) foram projetadas sobre o mapa e recortadas às zonas da avenida. Abaixo, a Paulista "endireitada" da Consolação (esquerda) ao Paraíso (direita), com a ortofoto ao fundo:

Ortomosaico da Avenida Paulista endireitado
Ortomosaico de toda a extensão (régua em metros ao longo da linha central). Entre ≈900 e ≈1.450 m, junto ao MASP, a projeção tem boa resolução: dá para ver a multidão, a bandeira e as árvores do Trianon. Fora desse trecho, a imagem fica cada vez mais "esticada": mostra que há gente desde a Augusta até além do Brigadeiro, mas não permite medir densidade. Fotos: Ricardo Stuckert/Lula Oficial (CC BY-SA 4.0); ortofoto: Prefeitura de São Paulo/GeoSampa (CC BY-SA 4.0).
O que isso muda na estimativa? A projeção confirma a extensão adotada nas zonas: há ocupação contínua do núcleo até as pontas, nas duas direções. Ela também mostra onde as fotos têm detalhe suficiente para contar pessoas, que é só o entorno do MASP. Para medir densidade em toda a avenida, seriam necessárias fotos verticais em alta resolução ao longo dela.

4Área: medida no OpenStreetMap

Dividimos a avenida em 6 zonas, do núcleo (MASP ± 250 m) às pontas, totalizando 114.856 m² entre a Consolação e o Paraíso.

5Densidade: o que deu e o que não deu para medir

O plano ideal era medir a densidade em amostras, usando como referência o carro de som, que exibe a placa "LARGURA 3,00 m · COMPRIMENTO 19,70 m". A largura de 3,0 m corresponde a ≈119 pixels na foto, ou seja, ≈40 px por metro. Isso funcionou para a escala. A contagem é que falhou:

Foto (Flickr id)0,5×1×2×Diagnóstico
55581805947 (panorâmica)506923.516instável
55582830431 (aérea alta)5564.34411.562instável
55583249180 (aérea alta)1.0085.61814.004instável
55583675910 (aérea média)2.6896.90711.203instável
55583639030 (aérea próxima)1.7842.6382.731estável (1×–2×)

DM-Count com pesos UCF-QNRF, mesmo modelo do site. Apenas a foto mais próxima tem contagem estável, e ela mostra só uma fração do núcleo.

Contagem com a grade junto ao palanque

O mesmo trecho de 5 × 5 m, ao lado do carro de som, foi contado em duas fotos:

Foto (Flickr id)ÁreaCabeçasDensidade
55583675910 (aérea média)25 m²1244,96/m²
55583639030 (aérea próxima)25 m²461,84/m²

A diferença entre as duas fotos do mesmo lugar mostra quanto a contagem depende do ângulo, da nitidez e de cabeças escondidas atrás de outras. Há ainda um viés para baixo: as cabeças estão ≈1,6 m acima do chão e, com a câmera a ≈18 m, projetá-las no chão espalha as pessoas por uma área ≈20% maior. Gente sob árvores e bandeiras não aparece na contagem, mas está incluída na área das zonas.

Com isso, o núcleo recebe 3 · 4 · 5 pessoas/m²: abaixo do ponto mais denso junto ao palanque, porque a zona tem 500 m. As demais zonas não puderam ser medidas (as fotos têm menos de 3 px/m nesses trechos) e recebem valores decrescentes ao se afastar do MASP, por comparação visual, com faixas largas:

ZonaÁrea (m²)Densidade mín · provável · máxBase
Núcleo: MASP ± 250 m22.4993 · 4 · 5contagem com grade junto ao palanque (1,8 e 5,0/m²)
Augusta → núcleo15.3322 · 3 · 4ocupação contínua da pista e das calçadas
Núcleo → J. E. de Lima20.8312 · 3 · 4ocupação contínua
Consolação → Augusta17.7261 · 2 · 3visível ao fundo; relato não verificado: ≈2/m² em frente à estação Paulista do metrô
J. E. de Lima → Brigadeiro11.1151 · 2 · 3visível ao fundo, densidade incerta
Brigadeiro → Paraíso27.3530,5 · 1,2 · 2no limite do horizonte

Relatos não verificados (sem foto nem horário): ≈2 pessoas/m² em frente à estação Paulista do metrô e multidões também nas ruas transversais. Entram como apoio, não como medição. Se você tem fotos desses trechos com licença aberta, elas podem virar amostras.

6Resultado e incerteza

Estimativa pontual = Σ área × densidade provável ≈ 289 mil pessoas Monte Carlo (20.000 simulações, semente 2026): erros correlacionados entre zonas (padrão): 210 mil a 380 mil · mediana ≈ 290 mil erros independentes (otimista): 260 mil a 330 mil · mediana ≈ 290 mil

Só o núcleo tem contagem; as outras zonas dependem de julgamento visual. Por isso a faixa é larga. Ela mostra o tamanho real da nossa ignorância, e não uma precisão que não temos.

Cenários de extensão

CenárioÁrea (m²)Estimativa pontual
A. Só Augusta → J. E. de Lima (núcleo + entorno)58.662≈ 198 mil
B. Consolação → Paraíso (adotado)114.856≈ 289 mil
C. B com largura total de fachada a fachada (50 m)127.618≈ 321 mil

Checagem física

A Avenida Paulista inteira, com 2,75 km × 50 m (≈137 mil m²), comportaria cerca de 550 mil pessoas a 4 pessoas/m² (multidão muito apertada) e cerca de 820 mil a 6 pessoas/m² (esmagamento). Portanto, 1 milhão de pessoas ao mesmo tempo não cabe fisicamente na avenida. Números desse porte só seriam possíveis contando ruas vizinhas ou o total de pessoas que passaram ao longo do dia (rotatividade), algo que fotos de um instante não medem. Essa checagem vale para qualquer estimativa anunciada para a Paulista, por qualquer grupo. A estimativa adotada (mediana ≈290 mil, densidade média ≈2,5/m²) fica abaixo da capacidade da avenida. Ela também fica acima das contagens independentes divulgadas (USP ≈204 mil, Poder360 ≈228 mil), e a diferença se explica pelas densidades atribuídas fora do núcleo, onde não houve medição.

Limitações e como melhorar

Reproduza

  1. Abra o relatório na ferramenta e altere qualquer largura ou densidade.
  2. Carregue as "fotos de exemplo" na etapa 1 e rode o registro e a IA no seu navegador.
  3. Na etapa "Projeção no mapa", os pares de controle deste estudo já vêm no relatório. Escolha 0,3 px/m, marque "recortar às zonas" e gere o ortomosaico. Você também pode apagar os pares e marcar os seus sobre a ortofoto.
  4. Confira os scripts em python/ (coleta com proveniência, registro e exportação do modelo).